Impedimento
27 outubro, 2011
Final do segundo tempo, zero a zero. O centro avante lança a bola para o atacante, que corre, corre, corre. O zagueiro do time adversário dormiu no ponto, e agora corre pra alcançar o atacante, em vão. Ao mesmo tempo que a bola passa por cima do goleiro, num chapéu espetacular, o zagueiro dorminhoco ergue o braço exigindo o impedimento.
Essa cena é bem comum, inclusive fora do campo.
Há uma mentalidade que me parece especialmente abundante neste país: todo mundo pensa que ninguém merece o que recebe. Seja na escola, porque eu tirei uma nota maior que o meu amiguinho, seja no trabalho, porque meu salário é maior que o do colega, as pessoas vivem querendo o impedimento das outras. Não foram elas mesmas que não correram o suficiente, mas eu que tirei vantagem da situação. É uma mentalidade de desprezo. Vivemos exigindo dos outros respeito à nossa profissão, qualquer que seja ela, mas constantemente desvalorizamos o trabalho dos outros, julgando-o menos importante, e consequentemente menos valioso, que o nosso.
O zagueiro não quer saber se o atacante fez mais treinos de corrida do que ele: é óbvio que ele que o bandeira não marcou o impedimento. Meu amiguinho na escola não quer saber se eu estudei enquanto ele jogava videogame: é óbvio que o professor é injusto. E meu colega de trabalho não quer saber se eu fiz horas extras, me dediquei mais ao meu trabalho: é claro que ele merece o mesmo salário que o meu por ter passado o dia inteiro no facebook.
Eu acho que essa é a essência do errado neste país. Todo mundo acha que vai ter um carro bonito, uma boa casa, um sistema de saúde bom, boas estradas, simplesmente por existir e reclamar. Não acho que os alemães da Volkswagen fizeram carros furrebas e esperaram as pessoas comprarem os carros deles. Não acho que os franceses tenham um sistema que valoriza o trabalhador sem terem feito nada. Não acho que grandes empresas como a Siemens e a Electrolux foram criadas enquanto os suecos invejavam a Volkswagen dos alemães. Eu acho que eles cuidaram mais da vida deles mesmos, e foram à luta.
Você pode achar o McDonald’s uma porcaria de comida para americanos gordos, cujo hamburguer já foi melhor, cujo pão era maior, etc etc., mas quando te dá uma vontade de um N°1 com Coca Zero, quem fica com o seu dinheiro são eles.